
Aos vinte e nove de março de 1853 na cidade
de Resende Rio de Janeiro nascia Anália Emília Franco,
filha de Antonio Mariano Franco Junior nascido em Mogi da Cruzes
– SP e Tereza Emília de Jesus, natural de Vila Nossa
Senhora do Ó - Pernambuco.
Antes de conhecermos mais sobre Anália Franco temos
que ter um rápido perfil da mulher no Brasil Colônia
e de sua participação na sociedade dos séculos
XVI e XVIII no Brasil.
Herdeira de costumes Portugueses, a mulher brasileira era tratada
em clima de austeridade, afastada de qualquer instrução.
Cita Alcântara Machado (historiador) que em 1627 a única
mulher, a saber, o nome no Brasil era a holandesa Magdalena Hobsquor,
alfabetizada em seu país.
Em 1699, surge a primeira mulher brasileira, Leonor Góis
Siqueira, a ter instrução educacional, a assinar
um documento em público, nesta época traziam os
documentos a seguinte explicação “por ser
mulher e não saber ler”.
Com a vinda de D. João VI para o Brasil Colônia,
surgem os primeiros colégios particulares no Rio de Janeiro.
No entanto, as pioneiras em educação foram os conventos
femininos e especificamente no Estado de São Paulo, os
de Santa Tereza, Nossa Senhora da Luz e Santa Clara.
Surge a Lei Nacional de 1827 determinando que “haverá
escolas de meninas nas cidades, vilas e lugares mais populosos”,
mas na prática, a lei teve uma evolução vagarosa.
Se o ensino ao sexo masculino já apresentava grandes falhas,
no feminino era muito pior.
Era ensinado às meninas, leitura e escrita, cálculo,
dança, piano, trabalhos de agulha e outras prendas domésticas,
uma ou duas línguas estrangeiras e regras de etiquetas.
Anteriormente a instalação da Escola Normal em 1880,
os poderes públicos só ofereciam ao sexo feminino
a instrução referente ao primeiro grau, na corte
e nas províncias. Apenas com a criação das
Escolas Normais essa situação se amenizou, isso
só ocorre em 1870.
Anália, portanto pode-se dizer, que tenha sido quase uma
exceção ao destino das mulheres de sua época
ao se analisar sua formação escolar e cultural.
Os seus primeiros estudos foram realizados em sua cidade natal,
Resende, com a ajuda de sua mãe, Tereza Franco, também
dedicada ao magistério. Sabe-se que, em 1861, seus pais
estabeleceram-se em São Paulo, e nesta época sua
mãe dirigi uma escola e Anália é matriculada
na mesma, tornando-se professora da escola pública em 1868,
aos 15 anos.
Em 1877 se matricula no 1º ano da Escola Normal no Estado
de São Paulo cujo curso tinha a duração de
02 anos , em 1878, obteve seu diploma.
O traço mais marcante de sua obra educacional foi a herança
recebida do humanismo - movimento filosófico e artístico
surgido na Renascença.
Em 1898, nos números oito e nove da revista Álbum
de Meninas (nov. e dez.) criada e escrita por Anália, ela
comentou sobre uma instituição fundada em Funchal,
Portugal, destinada à educação feminina e
de caráter eminentemente humanista. Buscou também
na França uma instituição fundada por Eliza
Lemonier que ministrava ensino profissional para mulheres pobres.
Baseada nestes trabalhos e atenta ao plano internacional que em
1897 contava com cerca de 400 organizações dedicadas
a auxiliar mães na educação das crianças
mantidas por grupos filantrópicos, entidades religiosas,
clubes de mulheres, associações, jardins de infância,
igrejas e outros funda a Associação Feminina Beneficente
e Instrutiva de São Paulo e não se limitou ao atendimento
à educação e assistência aos filhos
do operariado, classe emergente da era industrial, estendeu esses
benefícios a outras classes sociais e já nos Estatutos
da Entidade previu a criação de Liceus, Asilos e
Creches.
As grandes dificuldades enfrentadas pela Associação
após os primeiros anos de existência tiveram raízes
no empobrecimento da classe operária com o aumento do custo
de vida causado pela expansão da economia em 1910, que
cada vez mais solicitava os serviços das poucas Instituições
como a presidida por Anália. A seguir, a guerra de 1914
agravou mais ainda a situação, aumentando a defasagem
entre os salários dos empregados e os preços,. Essa
queda do poder aquisitivo, as péssimas condições
de trabalho com jornadas de quinze horas diárias, a utilização
de menores e mulheres jovens em trabalhos insalubres, a ausência
de uma legislação trabalhista que protegesse a classe
operária e lhe permitisse ter direitos, fazia com que esta
vivesse em regime de semi- escravidão, logicamente com
reflexos na formação da família.
Mal saída da 1ª Grande Guerra, o país viu-se
impotente diante da catástrofe que foi a gripe espanhola
de 1918 e que também trouxe conseqüências negativas
à Associação.
Em meio a este contexto social se desenrolou o trabalho educacional
de Anália Franco, cuja biografia se confunde com a própria
História da Educação no Brasil.
_Histórico
1853 – Nascimento de Anália Emilia Franco –
1º de fevereiro – Resende – RJ.
1861 – Mudança para São Paulo
1868 – Já auxiliava a mãe com (15 anos) em
colégios em Guaratinguetá, Jacareí, e arraial
de Minas.
1872 – Aprovada num Concurso de Câmara passando a
trabalhar oficialmente , como assistente da mãe.
1875 – Forma-se normalista em São Paulo na Escola
Normal Secundaria.
1888 – É nomeada professora pública.
1898 – Funda a revista “Álbum das Meninas”
1901 – Secretário Dr Bento Bueno aprova pedido de
17/09/1901 para a fundação da Associação
Feminina Beneficente e Institucional do Estado de São Paulo.
1901 – Largo do Arouche, 58 – sede da 1ª Escola
1902 – Fundação do Liceu Feminino para formação
de professoras para os lares do interior.
1902 – Artigo do Dr. Alberto Melo Seabra na revista “Educação”.
1902 – Fundação da 1ª Escola Maternal
do Interior em Dois Córregos .
1902 – Criação do Curso Noturno para Adultos.
1903 – Fundação da 1ª E. M. de Jaú
1903 – 1º nº da Revista da Associação
Feminina.
1903 – Fundação da Escola Maternal “Grande
Oriente”
1903 – Fundação do 1º Asilo-Creche em
São Paulo.
1903 – 1º nº de “A Voz Maternal “
1903 – Mudança para a Ladeira dos Piques nº
23
1903 – Eleição Presidente Anália/ Revisão
dos Estatutos.
1904 – Fundação E.M. Itapetininga
1904 – Fundação E. M. Campinas
1904 – Proposta Dr Ulysses Paranhos para fazer conferência
sobre “Higiene das Famílias” na Associação.
1904 – Reeleição de Anália como Presidente
da Associação.
1905 – Proposta para construção de prédio
próprio da Associação.
1905 – Projeto para construção e aprovado.
1905 – Reeleição de Anália.
1906 – Casa com Francisco Antonio Bastos.
1906 – Reeleição de Anália.
1906 – Abertura do Bazar da Caridade na rua do Rosário
e Sucursal na Ladeira dos Pires, nº 23.
1907 – Fundação da 1ª E. M. de Ribeirão
Preto.
1907 – Reeleição de Anália.
1908 – Empréstimo Hipotecário para Construção
do Asilo Creche e Albergue Diurno (3 pavilhões)
1908 – Fundação da 1ª E. M. de Sertãozinho.
1908 – Epidemia de Sarampo.
1908 – Fundação da 1ª E. M. de Limeira
1908 – Artigo “Ao Cair do Crepúsculo “
em Atibaiense (sobre Anália)
1908 – Reeleição de Anália.
1909 – Fundação da 1ª E. M. de Rio Claro
1909 – Fundação da 1ª E. M. de Jabuticabal
1909 – Revisão Geral dos Estatutos da Associação.
1910 – Proposta aceita da loja “Sete de Setembro “para
dirigir algumas escolas.
1911 – Aquisição da chácara Paraíso
e Fundação “Colônia Regeneradora Dom
Romualdo”.
1912 – Fundação do Lar Anália Franco
de Jundiaí.
1912 – Reeleição de Anália.
1913 – Fundação do Asilo Creche de São
Vicente.
1914 – Criação da Liga Educativa “Maria
de Nazaré”.
1914 – Fundação do Asilo Creche de Dobrada.
1915 – Reeleição de Anália.
1916 – Fundação do Asilo Creche do Rincão.
1916 – Contratação de Empréstimo para
pagamento da divida da chácara.
1916 – Fundação do Asilo Creche de São
Jose do Rio Pardo.
1916 – Pagamento e Lavratura da Escritura definitiva da
compra da Fazenda Paraíso.
1918 – Surto da Gripe Espanhola.
1918 – Carta ao Dr. Antonio Ribeiro
1919 – Ata de Testamento de Anália.
20 de janeiro 1919 – Desencarna em São Paulo.
_Anália em Jundiaí
“Aos 19 dias do mês de maio de 1912
nesta cidade de Jundiaí, estado de São Paulo, reunidos
os cidadãos abaixo, assinados, no prédio da rua
30 de outubro, sede da Sociedade Comunitária, à
uma hora da tarde, aclamado Presidente o Dr. Conrado Offa e Secretários
os Srs. Carlos Queiroz e Joaquim Lustosa, para o fim de fundar-se
um asilo e creche para os Órfãos existentes nesta
cidade, sob a direção moral e material da conhecida
e humanitária educadora de Dona Anália Franco”.
Assim foi aberta a ata de fundação da Instituição
em Jundiaí, que também elegeu a 1ª Diretoria:
João Xavier, Presidente; Conrado Offa, Vice; Francisco
Gomes da Silva, 1ª Secretário; Militão de Matos,
2º secretário; Luiz Cruz, Tesoureiro. A seguir, mais
35 signatários atestam o Ato.
Existindo até hoje sob denominação de Lar
Anália Franco, após a morte de Anália , desligou-se
da Associação, juntamente com as demais filiais.
A falta de orientação educacional e da presença
física de sua inspiradora faz com que a Instituição
tome uma característica assistencial, passando a atuar
como Internato de meninas órfãs ou desamparadas.
Assim permanece até 1990, quando adiantando-se às
políticas públicas implanta ações
complementares à escola para meninos e meninas a partir
do 7 anos, atendendo-os em Projetos Educacionais até os
14 anos, retomando os ideais educacionais de sua fundadora.